É POSSÍVEL QUE A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA ESTEJA VIVA EM VOCÊ HÁ MUITAS GERAÇÕES


Quero compartilhar a história de uma grande amiga minha. Nós fomos essenciais uma para outra e eu aprendi muito com ela. Gostaria de ter tido mais tempo para adquirir o conhecimento que tenho hoje e a maturidade que os anos me deram. Talvez, quem sabe, eu tivesse feito mais por ela.

Aprendi no último ano pandêmico, que a nossa vida é construída por nossas escolhas. E mesmo que sejam inconscientes, ainda são nossas escolhas e estão permeadas por todas as experiências boas e ruins que vivemos desde a infância. E sendo assim, tenho consciência, que por mais que eu tivesse a oportunidade de fazer mais por minha amiga, não sei se ela escolheria sair das situações que vou compartilhar.

Dediquei minhas noites da última semana para ver MAID, uma minissérie da Netflix, inspirada na história real de Stephanie Land. A minissérie conta a vida de Alex, uma mulher que trabalha como faxineira, para pagar as contas e tentar sustentar a filha, Maddy. Sem apoio familiar, ela passa por maus momentos. Após um episódio de abuso psicológico, Alex decide sair do trailer onde vivia com o namorado e a filha de 3 anos. 

Ver a minissérie, me fez pensar muito nessa minha amiga, que um belo dia, decidiu dividir comigo a história da sua vida. Quando criança, ela foi espancada seguidas vezes pela mãe. Cresceu em uma família humilde, com um pai calado e amável. E uma mãe rude, controladora e autoritária. Embora fosse uma mãe dedicada, minha amiga não podia errar. Um erro e o preço seria uma surra. Ela apanhou de vara, correia de bicicleta, pau de vassoura e por aí vai. Tinha marcas pelo corpo, mesmo aos quarenta e poucos anos. Mas, quando me revoltei com os relatos ela me disse: "Você gosta de mim? Considera que sou uma pessoa de caráter?". Respondi que sim. Então ela me disse: "Não fale mal da minha mãe. Se sou uma boa pessoa é graças a ela".

Depois ela me contou que seu primeiro namorado a ensinou a fumar. Ela tinha apenas 13 anos e acendia o cigarro para ele. Assim, acabou dependente. O pai, que via tudo, não foi capaz de fazer nada. Ele também fumava e na época era chic fumar. Imagine! 

Esse primeiro namorado a pediu em casamento e dizia a ela, que quando se casassem ele passaria tábuas e cadeado nas janelas, para que ninguém pudesse vê-la. Que as visitas à casa dos pais seriam regradas e somente na presença dele. Sem contar as constantes crises de ciúmes. Essa minha amiga era muito bonita, mas isso não justifica nada. Então, ela foi vendo aquilo e foi perdendo o encanto pelo namorado. O namoro acabou e alguns meses depois ela começou a namorar outra pessoa. Os pais faziam muito gosto.

Eles namoraram e decidiram se casar dois anos depois. A família dos pais do noivo não foram a favor do casamento, porque eles eram parentes próximos. Ela chegou a ouvir da tia-sogra, que não tinham nada contra ela, mas não queria ter um neto aleijado. Ela ficou muito sentida e assim que se casaram, ela passou de sobrinha preferida a nora odiada.

Mas, de todos esses relatos até aqui, um me impactou verdadeiramente. Ela se casou virgem e na lua de mel, teve as primeiras piores noites de sua vida. O hímen não cedia, era o que a medicina chama de hímen inelástico. O marido podia ter sido gentil, mas ele tentou noites seguidas romper o hímen. Não preciso nem relatar todo o sofrimento. Eu só fui entender algum tempo depois, que ela tinha sido estuprada pelo próprio marido em plena lua de mel.

Ao longo do casamento, antes de ter filhos, eles tiveram uma briga de ciúmes. Ele bebia, se soltava e ela não gostava da situação. Naquela noite, ele deu um empurrão nela e ela bateu a cabeça na quina da cama. Ficou um tempo em coma no hospital. Quando saiu pediu aos pais, que a deixassem voltar para casa. Mas o pai não permitiu. Disse que ela havia se casado por vontade própria e que não teria uma filha desquitada em casa. Se ela tomasse aquela decisão, teria que encontrar outro lugar para morar.

Ela voltou para o marido e não vendo saída decidiu engravidar. Ele não queria filhos. Mas ela não quis saber disso. Com alguns anos de casados veio o primeiro filho. O relato de parto dela era medonho. Sofreu demais, o bebê não saia e foi puxado com fórceps. Mas ele não saiu. Sem recursos, ela foi cortada sem anestesia. Sete tecidos. Imagine a dor. Desmaiou na hora. O bebê sobreviveu. Ela também. Mas teve uma série de complicações pós-parto. Dentre elas, uma vida regada por doenças psicossomáticas e uma depressão crônica. 

Eu não teria mais nenhum filho depois disso e juro, que não ia querer ver mais nenhum homem na minha frente. Mas, ela amava criança e teve mais dois filhos.

Os anos foram passando e ela sofreu muitas violências físicas e psicológicas com esse marido. Mas já eram quatro filhos, ela havia parado de trabalhar logo após o nascimento do segundo filho, por questões de saúde dele. Então, ir embora ficou muito difícil.

Ela me dizia, que tentou algumas vezes, mas que sempre voltava pelos filhos. Desejou ter outro relacionamento, mas temia sair de casa, perder a guarda dos filhos e vê-los passando fome.

Minha amiga não está mais entre nós. Ela é uma saudade bem grande em minha vida e também uma lição de escolhas mal feitas.

Durante muito tempo, tive muita pena daquele sofrimento todo. Sei que eu era a única pessoa em quem ela confiava para desabafar. Eu sugeri várias vezes um tratamento com psicólogos, mas ela não acreditava em terapia ou temia que a terapia desse a ela coragem para agir. Por que eu sei disso? Porque ela sempre me dizia: "Vai que a terapia me ajuda a tomar a decisão, que eu sei que não vou conseguir tomar."

Eu gostaria de ter podido fazer mais por ela, mas hoje, aos quarenta e um anos, após algumas terapias e processos de autoconhecimento, sei que por mais que eu fizesse, não cabia a mim decidir por ela.

Minha amiga me dizia algo interessante, que sei que permeia a mente de muitas pessoas. Ela dizia: "A vida seleciona os merecedores e os não merecedores. Eu vim ao mundo para sofrer. Fui espancada por minha mãe. Depois sofri abuso emocional do meu primeiro namorado. Fui violentada por meu marido. Sabe, eu nunca fui feliz. Felicidade não é para todos. Na verdade, eu acho que ninguém é feliz plenamente. Não neste plano. Não nesta vida".

As pessoas acreditam muito em destino, sorte, castigo, merecimento, não merecimento. Eu sei que a criação que tiveram e a forma como Deus lhes foi apresentado, tem muito a ver com isso. No lugar de amar e confiar em Deus, as pessoas o temem, porque ouviram desde crianças, que "Deus castiga".

Como pode, a inteligência que criou tudo que vemos e desfrutamos, ser não incrível em tudo que fez e tão má ao mesmo tempo? Ok. Crenças, não vou discutir isso. Mas, considero que esse tipo de pensamento limita a vida e as capacidades de muitas pessoas. Mantém muitas mulheres em violência doméstica. Aprisiona muitas pessoas em culpa e remorso. Permite que muitas pessoas se vitimizem em nome de Deus e entreguem à sua crença religiosa ou a uma pessoa, o controle sobre suas próprias vidas.

Em MAID vemos exemplos claros de abusos e como é difícil para muitas mulheres identificar quando isso começa. Primeiro, porque aprendemos que violência doméstica tem que ter a ver com agressão física. Mas, não é bem por aí. Começa com um puxão no braço, uma crise de ciúmes, um murro no volante do carro, um assédio sexual, um assédio moral. Nem sempre começa na agressão física. É como um iceberg. Você vê a pontinha do problema, mas sua base é bem mais profunda.

Segundo, porque é possível que essa violência esteja presente na sua vida há muitas gerações. Uma mãe que foi abusada pelos pais e se torna uma mãe narcisista e agressiva. Um pai que bebe e bate na mãe, porque viu o seu avô fazer com sua avó. Um pai que vê a filha contar que o marido a traiu e escuta esse pai dizer, "que não sabe mais o que ela pode querer. Um homem tão bom, seu único deslize foi trair. Onde ela vai encontrar alguém que cuide tão bem dela e dos filhos?". Um namorado, que faz um escândalo na festa por ciúme e no lugar de se sentir agredida, você acha bonito e interpreta que aquilo é amor. Pode até ter amor, mas tem acima de tudo um baita de um ganho indireto de controle. Pessoas feridas, tentando controlar outras com a mesma dose de veneno que receberam na infância. E pessoas aceitando a condição de vítimas e afirmando, que não podem sair daquela situação, porque na verdade não há saída para elas. Por má sorte, destino ou carma. Na verdade, pelo ganho de aprovação. De quem? Do pai que defende os homens disfuncionais e ferra a vida da filha. Da mãe, que espera que a filha seja boa, se case e construa uma família. Do namorado que 'demonstra amor' em suas crises de ciúmes. Enfim, são inúmeras as situações. 

MAID é uma lição de que sempre há escolhas. De que estamos sendo guiados por nossos escolhas até então. E de que muitos não escolhem outro caminho, porque ainda agem como a criança ferida da infância, que não teve suas necessidades atendidas e que faz birra, querendo ter hoje o que não lhes foi dado anteriormente.

Aprendemos com essa história, que se a criança ferida, não der lugar ao adulto, passaremos a vida como viveu a minha amiga, à espera de uma doença, um acidente, até que a morte nos leve para um lugar que não temos certeza, em busca de uma oportunidade que pode ser aproveitada hoje, ainda que mudar vá doer profundamente, desmanchar um relacionamento que já acabou, deixar para trás pessoas que amamos ou desagradar alguém.

Eu desejo, que você tenha curiosidade por essa minissérie. Seja você homem ou mulher. E que aprenda com ela, tanto quanto eu aprendi.

E prepare os lenços. Eu duvido que você não vá chorar em pelo menos um episódio. É desesperador, sufocante, mas para muitos será incrivelmente libertador.

Boa maratona para você.

Beijos,

Isabella Fernandino.

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