A Despedida
Eu relutei muito a escrever sobre esse filme. E como setembro está batendo em nossa porta, decidi escrever logo para não unir esse texto à discussão sobre suicídio.
A Despedida ou BlackBird, é um filme lançado pela Paramount. Fala de Eutanásia, mas eu fui um pouco além na interpretação.
Por que demorei a escrever sobre? Eu acabo de passar por um processo terapêutico e esse filme me impactou bastante. Eu fiquei sem fala, sem lugar, quando um detalhe sobre a personagem principal foi apresentado. Um detalhe para mim, um retrato da forma de viver dela.
Se você perdeu alguém recentemente ou está em iminência de perder alguém, não aconselho ver o filme, nem ler este post. E se ainda não viu o filme, este texto contém um certo spoiler.
Geralmente, os filmes que contam sobre pessoas que desejam "planejar" suas mortes, a fim de evitar sofrimento físico e/ou mental, provocam muitas reflexões.
Aqui, não vou tratar de certo ou errado. O juízo de valor não terá lugar em meu texto. Deixo essa parte para você, caso queira fazê-lo.
Um filme que se passa em dois dias, com uma noite de Natal fora de época no meio deles. Um filme em torno de uma decisão. Filhas em torno de uma mãe em iminência de cometer eutanásia. Uma decisão. Muitas perdas, muitos ganhos.
Ganhos? Sei que você já deve ter feito essa pergunta.
Sim, ganhos. Vamos direto ao ponto.
Lily (personagem de Suzan Sarandon), possui uma doença terminal. A doença já paralisou um de seus braços e o mesmo ocorrerá com todo o seu corpo até que fique em estado vegetativo à espera da morte. Porém, Lily decide tirar a própria vida praticando eutanásia com a ajuda de seu marido, que é médico.
O diretor passa boa parte do filme, apresentando os personagens. Isso faz com que nem a história da personagem principal, nem as tensões entre mãe e filhas e entre irmãs, ganhe o destaque que teria se a razão de estarem juntas em casa fosse outra.
Em alguns aspectos o filme deixa a desejar, mas para quem possui um conhecimento a mais, o filme apresenta muito a ser debatido.
Imagine-se com uma doença terminal, que vai te paralisar todo(a). Você podendo fazer algo, optaria ou não por tirar a própria vida?
Pensar a respeito e ter uma atitude, são dois lados de uma mesma moeda.
A atitude é o que definirá sua forma de existir e se relacionar com a vida.
Lily não só decide morrer, como planeja tudo nos mínimos detalhes, definindo inclusive com quem seu marido irá ficar após a sua morte.
Nós não possuímos o controle de absolutamente nada. Mas, há pessoas que acham que controlam situações e pessoas. Podemos dar vários nomes para isso: articuladores, manipuladores, controladores. Enfim...
Quem escolhe controlar tem um ganho indireto. É até engraçado chamar de indireto, mas a verdade é que essa forma de agir retrata a forma principal como a pessoa encara as situações e faz suas escolhas.
Algumas pessoas adquiriram na infância uma sede por poder, controle, vingança e força. Não lhes era permitido falhar ou fracassar, pois as falhas eram consideradas por seus pais ou cuidadores, como fraquezas. Essa criança cresceu e se tornou um adulto, que possui uma necessidade constante de sentir que está no comando de tudo e de todos.
Lily possuía esse ganho indireto e a única forma disso acabar, seria com a própria morte. E talvez, nem assim, já que ela articulou inclusive com quem o marido ficaria e uma possível reconciliação entre as filhas. Por meio dos últimos momentos em família, deixou saudade e culpa. Uma forma de marcar presença, mesmo não estando mais viva.
Pessoas passam por situações de dor e sofrimento repetidas vezes ao longo da vida. E em muitos casos escolhem, inconscientemente, permanecer na mesma situação por causa de seus ganhos indiretos. Uma criança que na infância não teve a devida atenção e cuidado dos pais, tende a ter comportamentos na idade adulta como criar doenças para que seja cuidada e receba atenção. Parece algo sem a menor lógica, até porque essa postura causa grande sofrimento para a pessoa e aqueles que a cercam. Mas as pessoas escolhem voltar para a origem de suas questões principais, a fim de se manterem próximas das pessoas que elas amam ou de atrair essas pessoas para si.
No caso de "A Despedida", tendo sido uma ótima ou uma péssima mãe, a forma como Lily escolhe se despedir e como planeja cada detalhe, revela as escolhas que ela fez ao longo de sua vida e como tentou se manter no controle, com seus ganhos de controle e força. Ela manipula com quem o marido ficaria após sua morte. O marido poderia até substituí-la, desde que fosse com alguém que ela escolhesse. É bem impactante ver essa parte do filme.
Além disso, ela cria uma despedida na qual tira o foco de suas falhas e transfere para as filhas a obrigação de se acertarem. Uma das filhas é especialmente afetada pela escolha da mãe. Trata-se de Mia, filha com problemas de codependência emocional, devido a uso de drogas, que não se sentia amada e cuidada pela mãe, e a única pessoa em toda a trama, que parece realmente discordar da escolha da mãe.
Personagens desejosos de mais tempo e personagens desejosos do fim. Ambas as visões se misturam com angústia, medo e dor. Fiquei bem impactada.
E você, o que escolhe para a sua vida: viver e deixar marcas positivas ao longo da caminhada ou criar um final marcado pelo controle, movendo cada peça do tabuleiro ao seu bel prazer?
Vale no mínimo uma reflexão. Sem certo ou errado. Eu sei que no fim das contas você já compreendeu por meio da sua resposta íntima, qual é a sua forma de funcionar.
Desejo que o filme e este texto faça algum sentido e te ajude a refletir sobre a vida.
Abraços,
Isabella Fernandino.

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