Você Não É Vítima Da Sua História

 


Toda história tem pelo menos dois pontos de vista.

Quando falamos de família e vida, os pontos de vista sempre importam quando se deseja um bom convívio e uma comunicação adequada, embora nem sempre aconteça assim.

Hoje vou falar sobre CODA - No ritmo do coração. Trata-se de um filme belíssimo, que aborda a relação de Ruby Rossi com a família e seus sonhos. Ruby é o único membro que escuta em uma família de surdos.

Quando vi o trailer eu falei: "Ainda não vi, mas já amei. Que filme fantástico!". E eu não estava errada. CODA é de uma delicadeza rara. Retrata muito bem um sistema familiar peculiar, que possui porém, questões muito parecidas com os conflitos e as escolhas de tantos outros sistemas familiares. O diretor foi preciso em mostrar o ponto de vista de todos os envolvidos.

Aperta o cinto, porque esse post vai te tirar do lugar comum.

CODA vem da sigla da organização internacional ‘Children of Deaf Adults’, que significa filha de adultos surdos. Mas também pode ser desfecho de uma composição, neste caso, uma composição musical. Ambos os significados de encaixam muito bem na história do filme. Por ser a única que escuta em sua família, Ruby acaba amadurecendo cedo demais. Ela assume para si a responsabilidade por cuidar dos pais e do irmão mais velho, visto que eles se relacionam e se comunicam com o mundo por meio dela. 

A adolescente amava cantar e tinha o sonho de fazer faculdade de música, porém havia duas limitações, os pais não podiam pagar sua faculdade e a família dependia dela como interprete deles diariamente.

Sei que ao ver o filme boa parte das pessoas vai dizer que o sonho é lindo, mas que seria injusto que Ruby realizasse seu sonho visto que a família dependia totalmente dela. Outra parte dos expectadores, dirá que os pais não tem o direito de tirar o sonho da filha e limitar sua vida inteira ao mundo deles, pois eles nasceram surdos e ela não, e além disso, pais de verdade fazem o impossível para realizar os sonhos dos filhos.

Ao ver o filme, somos convidados a conhecer três pontos de vista: dos pais, de Rubby e de seu irmão. Eu não vou entrar em detalhes para não dar spoiler, mas te convido a uma reflexão.

Vivemos em um mundo muito narcisista, no qual as pessoas vivem armadas e tudo o que acontece acaba sendo sobre elas. Há muitos pais por aí, cheios de ego, competindo com seus filhos e podando seus ideais. Alguns porque não tentaram encontrar saída para suas limitações, outros porque se vitimizaram.

Eu tenho um irmão, que ficou surdo por causa de um sarampo, que lesou o nervo da audição. Ele escuta apenas 30% em cada ouvido. Quando meus filhos nasceram, eu passei a questionar muitas coisas, que eu nunca havia questionado e me dei conta de que vivi anestesiada por muito tempo. Fiquei brava comigo muitas vezes por causa disso. E após cursos e terapias, eu percebi que minha mãe fez o que pôde para que meu irmão não fosse uma vítima de si mesmo. Em alguns aspectos ela foi bem longe com ele. E talvez, tenha sido isso que tenha nos ajudado a olhar para ele como uma pessoa normal e não o tratássemos como se ele fosse vítima da própria história.

Nenhum de nós é vítima da própria história. Tudo são escolhas. E o que Ruby fez, foi olhar para si mesma e para sua família sem vitimização.

O filme está longe de cair no lugar comum. Tem uma reflexão muito importante sobre os surdos. Assim como em Sound of Metal (O som do silêncio), o filme trabalha muito bem o silêncio. É claro que por ter o tema em minha família, me senti muito envolvida com o filme, mas a questão é que não tem como não se envolver. Mesmo não vivendo próximo da situação, sentimo-nos íntimos dos personagens, podemos sentir as dores e os anseios de cada um. Os pontos de vista ficam muito claros. 

Para nós pais e mães, ter uma alta capacidade de destituição narcisista é um exercício diário, pois queremos proteger nossos filhos da dor, das falhas, das pessoas, do mundo. Mas, o que conseguimos com isso, são filhos emocionalmente dependentes, sem ambição de vida e repletos de medos. Conseguimos que vivam as nossas vidas e os nossos desejos. Eles não muito vão longe. E nem poderiam, pois cortamos suas asas.

Colocando o olhar sistêmico sobre a história, percebemos em dado momento, que os pais e o irmão de Ruby, se colocam como vítimas da própria história. O que é perfeitamente compreensível pela ótica da psicanálise e pela ótica sistêmica. Parte do sistema se percebe menor, diferente, excluído. E quando Ruby enfrenta seus medos, os preconceitos e a família, mostrando para todos possibilidades e seu ponto de vista, a família começa a mudar.

Ser feliz está longe do conceito de vida perfeita. Tem muito mais a ver com deixar de ser vítima e se tornar autor da própria história. Tendemos a aumentar nossos problemas em proporção e dimensão, seja para nos manter perto  daqueles que amamos ou para trazê-los/mantê-los perto de nós. Nossa dependência emocional nos cega para as possibilidades da vida e para a capacidade de ser, de viver, de alcançar metas e sonhos, daqueles que amamos.

Assim, um ciclo negativo, acaba influenciando a forma como agimos e reagimos a cada tipo de situação. Esse lado negativo, tem um efeito cumulativo tanto nos pensamentos quanto em nosso agir. Criamos uma estrutura mental que se especializa nisso e deixamos de olhar para nós, pros nossos sonhos e capacidades. Pensando negativamente, qualquer situação parecerá impossível.

Já parou para pensar que o poder está todo em suas mãos? Que é responsabilidade sua e de mais ninguém, de criar a sua própria realidade? Independente de estudo, dinheiro, condições fisiológicas. Depende muito de uma atitude mental positiva, e foi isso que Ruby tentou mostrar para sua família, que a vida e a realização dela e dos pais, dependia de cada um deles e não somente dela. Que uma condição não podia determinar uma vida, que não era justo com ela e com eles, que se definissem vítimas da própria situação. Como ela tinha suas capacidades, também a família as possuía. E uma atitude mudou toda uma situação. Só é real em nossas vidas, aquilo que nós permitimos.

É assim com o medo, com as dores, com as falhas, assim como com a coragem, os recursos, as tellantativas e os acertos.

CODA é uma lição de como sair do quase. Quase ser realizado, quase aprimorar um dom, quase provar o seu valor, quase ser capaz de ser feliz. 

Um filme lindo, emocionante e com uma bela lição de que o tempero da vida são os sonhos que pulsam dentro da gente. Eu te recomendo duas coisas: ver o filme e jamais deixar de lutar por aquilo que te faz vibrar, sonhar e realizar.

Abraços e uma boa vida para você,

Isabella Fernandino

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