Cenas de um casamento: como as primeiras interações impactam nossas vidas.
Eu não via a hora de escrever sobre "Cenas de Um Casamento", série lançada pela HBO em setembro deste ano. A série foi criada por Hagai Levi, mesmo criador de Sessão de Terapia, e é baseada na obra de Ingmar Bergman de 1973. Bergman é um diretor de cinema, que sempre tratou de forma peculiar a psique humana.
Na criação de Bergman, a obra joga totalmente a favor do machismo da época, com uma esposa totalmente submissa ao marido. Tudo caminhava para não encontrar os meios que justificam os fins. Já na versão de Levi, percebemos alguns caminhos muito fáceis para apontar culpados, vítimas. Na relação de Jonathan e Mira, encontramos mais elementos capazes de justificar o fim da relação. Um casal sem intimidade, uma esposa "sem tempo" para a família e a decisão de Mira de sair de casa após se apaixonar por outra pessoa. Assim, torna-se tendencioso colocarmos o esposo como a vítima e a esposa como a vilã da história.
Se observarmos as emoções que nos são provocadas na série, vamos notar como o machismo continua permeando nossos julgamentos ao longo dos episódios, embora a nova versão tenha diferenças com relação à primeira. Apesar disso, presenciamos discussões acalouradas entre o casal e uma autenticidade muito bacana nos diálogos de ambos.
Uma parcela considerável de homens e mulheres, eu não vou jogar essa bomba só no colo deles, considera casamento uma prisão. Seja porque já passou por um e não foi bem sucedido(a), seja porque acompanhou uma relação difícil entre os pais ou porque cresceu ouvindo absurdos sobre casamento. Enfim, podem ser inúmeros os motivos.
Cenas de Um Casamento se passa quase em 100% do tempo, no mesmo cenário. E sim, a ideia era dar um tom de confinamento aos personagens. A série trata de um casamento em que questões como monogamia, traição, arrependimento, libertação, rotina e fim de sentimentos são exploradas com grande ênfase.
Ao longo da trama nos é revelada a origem de tantas confusões e crises de identidade e fica claro como a nossa infância exerce grande poder sobre nós adultos. E assim, a trama nos leva a pensar sobre nossa essência. Algumas relações, não nos permitem repensar comportamentos, atitudes e valores, tão anestesiados que estamos pela rotina ou fascinados pelas ilusões que criamos do outro e de nós mesmos.
Essas relações, não nos ajudam a acessar nossa essência a ponto de repensarmos algo e buscarmos evolução. Afinal, esse é um importante motivo por criarmos nossas interações, nosso crescimento pessoal e coletivo. Os relacionamentos amorosos por exemplo, são uma forma de crescimento pessoal e ampliação do nosso "eu", por enriquecer nossa experiência, flexibilizando nosso sistema emocional pela possibilidade de integrar afetos que não tinham encontrado uma configuração relacional de expressividade, de forma a quebrar os padrões que foram implantados desde a nossa infância e primeiras interações. Aos que se permitem e se entregam, é uma forma de se expressar em essência, como seríamos, se não tivéssemos sido submetidos aos valores, experiências e impressões de outros adultos, às convenções sociais, questões religiosas e repressões familiares. E fato é que, a forma como vamos integrando nossas experiências afetivas e relacionais à continuidade do self, afeta significativamente nossas relações.
A identificação de muitos espectadores com os personagens principais, Mira e/ou Jonathan, não é nada difícil de acontecer. Se assistir atentamente, verá que já na primeira cena da série há muito mais a ser percebido sobre o casal no que não é dito por eles.
Há em nossa sociedade um estigma de casal "ideal". E a série trabalha para desmistificar esse casal durante a sua separação. Eu tive vontade de brigar, xingar e afirmei inúmeras vezes, que a protagonista era muito louca. (rsrsrs)
Durante os diálogos do casal, começam a surgir sentimentos ocultos de ambos, que não apareceriam se não estivessem passando por uma crise conjugal.
Porém, não posso deixar de falar aqui sobre a inversão de papéis vivida por este e por inúmeros casais espalhados pelo mundo. Culturalmente aceitamos mais rápido quando um homem erra ou é egoísta, até por culturalmente estarmos acostumados a isso. E quando uma mulher erra, pegamos mais pesado com ela. E isso nos causa mais impacto.
Uma mulher linda e feminina com atitudes masculinas, de dominância e controle. Uma pessoa que embora sofra, não se permite mostrar fraca, dar o braço a torcer. E um homem lindo e afetuoso, completamente passivo, apagado, vulnerável, assumindo papéis que culturalmente espera-se da mulher, sofrendo pelo fim de uma história na qual ele ainda está totalmente envolvido emocionalmente. É aí que está o grande impacto da série.
Jonathan luta por uma relação já falida, para a qual ele se entregou, se dedicou e na qual ele acreditava. Mira, se perde de si mesma e já não acredita mais na história construída.
Em uma das conversas do casal, conseguimos entender um pouco dos valores de Mira sobre os relacionamentos. Criada por uma mãe que a fez desacreditar no amor, ela acabou escolhendo viver relações abusivas. Ao conhecer Jonathan e se tornar a melhor amiga dele, ela acaba sendo "resgatada" por ele, dessa sequência de relações destrutivas. Porém, após dez anos juntos, o peso da rotina acaba fazendo com que Mira escolha viver uma relação extra conjugal.
Ao final dessa história, fica nítido o quanto o fim dessa relação impacta os valores de Jonathan, que acaba se envolvendo em relações ruins, tem um filho com uma pessoa que ele não ama, apenas por medo de ficar sozinho. Por outro lado, a traição de Mira exerce um impacto tão grande sobre ele, que altera totalmente seu comportamento e seus valores. Ele se torna uma pessoa mais cética, pessimista e até antiética no que diz respeito às relações amorosas, traindo a atual companheira, por receio de ser trocado novamente.
Esse é o risco de insistirmos em relações ruins. Ficamos tão desacreditados, que caso surja uma pessoa especial, não teremos discernimento para identificá-la.
Interessante, que na última cena da série ouvimos uma música brasileira, trata-se de Retrato em Preto e Branco de Chico Buarque. A letra fala justamente do retorno a relacionamentos que já acabaram e que nunca vão dar em nada. "Já conheço os passos dessa estrada, sei que não vai dar em nada. Seus segredos sei de cór. Já conheço as pedras do caminho e sei também que ali sozinho, eu vou ficar, tanto pior. O que é que eu posso contra o encanto desse amor que eu nego tanto. Evito tanto. E que no entanto, volta sempre a enfeitiçar".
Enfim, seja na década de 70 quando foi gravada a primeira versão ou em 2021, fica a pergunta: Quantos obstáculos o amor pode superar?
Se não há limite para o amor, creio que há muito a aprender com "Cenas de Um Casamento" e todas as reflexões às quais somos levados.
Fica a dica dessa série fantástica. Ela é curtinha, tem É começar a ver e não parar mais.
Abraços,
Isabella Fernandino.
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