Será que todos vão mesmo embora?

 


À espera da última temporada da minha série favorita "This is Us", fui navegar pelos canais à procura de algo doce e despretensioso. Em tempos de pandemia, procurei me afastar das tramas densas.

Comecei a ver "Doces Magnólias", mas já no segundo episódio, eis que encontrei pela internet uma crítica sobre "Chesapeake Shores". De curiosidade, comecei a ver e não parei mais.

Era pra ser uma distração, mas no final da terceira temporada fui surpreendida com algo bem familiar. Não que eu tenha sido abandonada na infância, mas sim, posso dizer que esse medo sempre nos rondou.

Bom, vamos à série. A história gira em torno de Abby, a filha mais velha de uma família grande, linda e cheia de percalços, aliás como toda família.

Abby é uma mãe divorciada e bem sucedida em sua profissão. Desejando passar mais tempo com as filhas, ela retorna à sua cidade de origem e o drama familiar dos O'Brien começa a ser narrado.

Quando tinha dezessete anos, os pais de Abby tiveram uma briga e a mãe acabou saindo de casa. Os cinco filhos ficaram com o pai e a avó. A mãe mudou-se para Nova York à procura de tratamento para a depressão que havia desenvolvido após o parto da filha caçula, então com 6 anos.

A família cresce, cada um escolhe a sua profissão e Abby se casa logo após formar na faculdade. Porém, o casamento termina e ela decide voltar para a casa do pai. Isso dá início a um movimento de retorno de todos os membros da família O´Brien, inclusive da mãe.

Vendo a trama, algumas perguntas me foram surgindo: Por que somente a Abby se casou? Por que ela trabalhava tanto, que não conseguia ter tempo para o marido e as filhas? Será que ela estava fugindo de alguma coisa?

É engraçado como passamos a vida anestesiados. Seguimos vivendo, sem nem mesmo questionar e/ou compreender o que nos acontece. Porém, cada pensamento nosso, cada palavra que proferimos e cada um dos nossos comportamentos, tem raiz em nossa infância.

Eu já tinha percebido o cunho sistêmico da narrativa, mas fui surpreendida com as abordagens.

Abby temia tanto ser abandonada, que se entregou 100% ao trabalho, colocando-o acima até dela mesma e de sua felicidade.

O fato da mãe ter saído de casa, gerou em todos os filhos o distúrbio de prioridade. Todos consideravam que ficar sozinhos ou fugir de seus relacionamentos era o mesmo que se colocar em primeiro lugar. Porém, eles não conseguiam ser felizes, pois além de não se entregarem nas relações, desconfiavam de tudo e de todos. Essa questão mantinha todos no mesmo ciclo e na tentativa de sair do núcleo familiar, todos voltavam para a dor do abandono. Nem mesmo as amizades se sustentavam.

Todos os filhos apresentam um pensamento e uma fala em comum: "No fim das contas, todos vão embora um dia".

Mas, será mesmo que isso é verdade ou trata-se apenas da forma como aqueles filhos aprenderam a ver a vida?

Talvez falte-lhes apenas olhar a ferida de frente, dar espaço para ela e de fato compreendê-la. Não é uma tarefa fácil e certamente dependerá de um processo profundo de acolher a criança ferida para  entender porque certos problemas sempre se repetem e como afetam as relações e consequentemente a vida profissional e financeira. Não podemos esquecer, que está tudo interligado.

Compreender a origem e o "por que" de nossas dores é fundamental para fazermos o movimento de auto compreensão e de cura,

Nossas feridas existenciais, nos acompanham ao longo da vida. Agora, imagine carregar o fardo de temer constantemente ser abandonado. Dá para entrar em colapso. Essa tensão, acompanha pessoas que foram abandonadas ou que tem medo do abandono e certamente, afeta a sua saúde mental, emocional e física.

Para justificar o medo de ser abandonado, o indivíduo se sabota inconscientemente. É comum proferir frases como "Você ama mais eles do que a mim." e "Vou deixar fulano(a) antes que me deixe".

É interessante acompanhar os personagens da trama e ver como o trauma de infância se manifesta em cada um. Como tendemos a analisar tudo e todos com base na nossa verdade, sem tentar compreender as razões dos outros, ainda que estes sejam as pessoas que mais amamos. E por fim, como podemos ser cruéis com nós mesmos e permitir que a decisão de uma pessoa, mesmo sendo essa um pai ou uma mãe, comande toda a nossa existência, a ponto de considerarmos que não somos dignos de amor e felicidade.

Uma criança não tem escolhas. Mas como adultos, somos responsáveis por tudo que escolhemos manter em nossas vidas.

Se ficou curioso(a), corre lá na Netflix.

Abraços,

Isabella Fernandino.

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