The Flight Attendant e Consciência Sistêmica
Me corrijam as mulheres, caso eu esteja errada, mas na grande maioria dos casos, os pais são o primeiro grande amor na vida de uma filha. São o herói, o príncipe, o amigo. E digo na maioria das vezes, porque essa mesma pessoa, desempenhando o mesmo papel, também pode vir a ser o monstro e o bandido na vida de uma mulher.
E para falar sobre isso, trago a série The Flight Attendant da HBO Max, um suspense de humor ácido baseado no livro de Chris Bohjalian, listado no New York Times como um dos livros mais vendidos.
Em uma noite, uma vida inteira pode mudar, mas será que toda essa mudança não tem nenhum dedinho de impacto na infância? Vamos refletir sobre.
Cassie, uma comissária de bordo, conhece um homem dentro do avião e ao chegar ao seu destino, aceita o convite desse passageiro para uma noite em Bangkok. Eles saem, se divertem e acabam em uma cama de hotel. Antes de amanhecer ela acorda ainda muito tonta por ter bebido vodka a noite toda. Ao lado dela está o passageiro morto. Ela, sem a menor ideia do que aconteceu, tenta limpar qualquer vestígio de sua presença no quarto e voa de volta para Nova York.
Não vou dar detalhes sobre a trama, mas abordarei a questão do alcoolismo da personagem principal, Cassie, e a relação disso com a Consciência Sistêmica.
Pela Consciência Sistêmica, o alcoolista de forma geral, torna-se doente para delatar a doença do sistema no qual está ou esteve inserido, ou seja, seu ambiente familiar primário. É como se essa pessoa gritasse para o mundo, que o sistema está adoecido, muitas pessoas nele estão adoecidas e ela se junta a essas pessoas nessa dor, seguindo-as em dependências, vícios, compulsões, em uma busca inconsciente pela morte.
É muito comum as pessoas olharem para um alcoolista e dizerem que ele não larga o álcool por falta de vergonha na cara. Mas a verdade é que a mensagem que ele quer passar é para olharmos para o sistema dele e percebermos como esse sistema está doente, como ele precisa de socorro. Essa pessoa, se coloca em sacrifício por amor ao sistema.
Outra situação, é a pessoa não conseguir olhar para o sistema, não conseguir reconhecer o que aconteceu. Maus tratos na infância, abusos, pais que ofereceram bebida para as crianças, ou crianças que viram cenas desses pais bêbados. Ou casos de antepassados que sofreram muitas coisas. Escolher não ver é permanecer na ingenuidade infantil, na miopia.
O que ocorre na fase adulta é que aquela criança cresce, vendo que alguém do seu sistema foi excluído, seja pelo uso do álcool ou de drogas, por exemplo. Então, essa pessoa escolhe caminhar no mesmo sentido, por amor ao outro, seguindo o mesmo destino. A lealdade cega ao sistema familiar trava várias coisas em nossas vidas, nos leva ao sofrimento, à morte, à dor. Fazemos isso amorosamente e inconscientemente. A ambição castrada na infância por esses exemplos e acontecimentos, dá lugar à dependência emocional.
Por isso é tão importante nossa autoanálise e auto observação, pois somente assim, podemos perceber o quanto deixamos de nos priorizar para assumir as escolhas de outras pessoas. Somente quando nos colocamos em nosso lugar e os demais elementos do sistema em seu devido lugar, conseguimos realinhar as coisas e retomarmos o que é nosso, ou seja, nossa própria vida, nossas próprias escolhas, nossa essência.
Na série, a personagem Cassie, tornando-se alcoolista e gerando várias situações conflitantes para a própria vida, faz o movimento de inclusão do pai, também alcoolista, visto que o sistema estava todo bagunçado desde a infância e ele acabou excluído por todo o sofrimento causado à mãe, ao irmão e a ela mesma. Pela Consciência Sistêmica, cada membro deve ocupar seu devido lugar. Quando isso não acontece, alguém assume o papel do excluído e acaba pagando um alto preço por isso.
Cassie possuía uma relação muito próxima e doentia com o pai. Seu irmão mais velho, considerado pelo pai como fraco, é excluído pelo mesmo no sistema, E assim, coloca Cassie no papel de filho e de irmã mais velha, invertendo a ordem do sistema. Ele passa a tratar a menina como se fosse homem e para completar, oferece bebidas a ela, que acaba viciada.
Trata-se de um caso muito nítido de dependência emocional e um desejo ardente de salvar o pai de algo, que aquela criança não teve influência e nem culpa.
Costumamos dizer uma frase, que vai explicar muito bem toda a situação de Cassie em relação ao pai, "Eu te odeio por te amar tanto". O amor dela foi tão cego, tão doentio e a necessidade de salvar o pai dele mesmo foi tão grande, que ela desenvolve um distúrbio de prioridade e torna-se uma dependente química, empatando assim os relacionamentos amorosos em sua vida e prejudicando suas relações de amizade, bem como as relações profissionais.
Quando tentamos viver duas vidas, acabamos não vivendo nenhuma. Cassie não podia dedicar-se a própria vida, vivendo na tentativa de salvar o pai e reparar um erro, que não era dela.
Nós somos o sonho dos nossos antepassados, por isso é tão importante que curemos nossas dores e sombras, deixando orgulhosos aqueles que nos antecederam e livres todos aqueles que ainda virão.
Te recomendo The Flight Attendant. A série é ótima e vale a pena a reflexão.
Abraços,
Isabella Fernandino Machado.

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