As consequências dos segredos de família na consciência sistêmica
Vamos falar da minisserie da HBO, I Know This Much Is True, estrelada por Mark Ruffalo, que interpreta os irmãos gêmeos Dominick e Thomas. Os meninos perderam o pai antes mesmo que ele os conhecesse, a mãe era depressiva e um dos gêmeos, esquizofrênico e paranoico. A história é da pesada, mas não se assuste, a série é muito boa.
Baseada no livro "Eu Conheço a Verdade", escrito por Wally Lamb, foi lançado no Brasil pela editora Record, a série é o primeiro grande projeto de Ruffalo como produtor, além disso, ele foi premiado no Emmy como melhor ator.
Conforme a história, Dominick, um dos gêmeos, vive uma grande tragédia pessoal e isso muda parte de sua trajetória de vida. Ele possui uma conturbada relação com seu irmão Thomas, que no início da série, corta a própria mão em sinal de sacrifício.
Desse epísódio em diante, conhecemos melhor Dominick, inclusive a série passa a ser mostrada sob a sua perspectiva. O personagem acumula cada vez mais pesos em suas costas, e seu irmão é transferido para uma nova instituição de saúde mental, mais parecida com uma cadeia. Dominick luta bravamente pela liberação do irmão. Durante essa narrativa, surgem flashbacks da infância e juventude dos gêmeos, formando o mapa de uma família cheia de disfunções. E aí, para conhecê-las, você precisa ver a série.
Os pesos que foi carregando ao longo da vida e todo o desgaste pelo que foi passando, fazem com que Dominick exploda a cada novo acontecimento.
Há algo bem existencialista nessa série. Nos leva a refletir bastante sobre as nossas vidas, quem somos e como nos colocamos em nosso sistema familiar, herdando sem questionamentos, crenças e posicionamentos de fundo religioso.
Ao longo da série, percebemos como um histórico familiar de machismo reina sobre Dominick, herdados do avô, que era um italiano machista e extremamente abusivo, bem como do padrasto. Seu machismo fica nítido em atitudes do personagem com relação à sua ex-esposa, bem como em relação a uma namorada na fase adulta. Embora sempre tenha tido curiosidade sobre a origem de seu pai, a identidade do mesmo nunca foi revelada pela mãe. Porém, ao longo da história, Dominick recebe da própria mãe, o manuscrito da autobiografia do avô. E por meio desses relatos, começa a questionar algumas posturas, assim como o machismo, embora ele não chegue a expressar isso verbalmente.
Esse manuscrito, revela um segredo de família, e é aqui que eu quero falar a vocês sobre as constelações familiares.
Um tema muito importante quando se fala em família, são os "segredos". Há segredos de família que precisam vir a tona em algum momento. Porém, quando são escondidos, revelam-se uma fonte de traumas e conflitos.
Abusos de todas as formas, traições, suicídios, assassinatos, abortos, fraudes, adoções, identidade de um pai, quando escondidos, tornam-se um peso nocivo para as gerações futuras, pois todo segredo exclui, e toda exclusão gera um emaranhamento. Falar dos segredos aos filhos, torna-os mais leves para as futuras gerações.
Os princípios de Tales de Mileto sobre a alma, bem como as reflexões de Jung sobre o inconsciente coletivo, concluem que toda estrutura, seja ela uma família, uma empresa, um organismo, vivem num campo mórfico, que atua como uma memória na qual estão armazenadas todas as informações importantes do sistema e assim, cada elemento pertencente a esse sistema, está em ressonância com o todo.
Por isso, um segredo pode se arrastar por várias gerações. E é aí que está o problema, pois os elementos se veem envolvidos em emaranhamentos e não conseguem compreender os motivos reais.
Na série, somos surpreendidos com Dominick utilizando esse segredo de família como a desculpa e a justificativa para todas as escolhas ruins ao longo de sua vida, bem como as escolhas feitas por cada membro de seu núcleo familiar.
De fato, às vezes é mais fácil ou menos penoso, olhar para fora e encontrar soluções ou explicações para a nossa dor, nossos fracassos e decepções. No lugar disso, o que nos restaria, seria olhar para dentro e nos autoresponsabilizar por nossas ações e escolhas.
É muito fácil imaginar que talvez sejamos feitos por Deus, pela genética, pelo pecado pensando na questão religiosa, ou por um passe de mágica, o que muitos denominam como "sorte".
Olhar para nós mesmos e descobrirmos quem somos e quem podemos vir a ser, nos revela as nossas dualidades: raiva e gentileza, força e fraqueza, tristezas e alegrias. Muitas vezes perdidos, mas responsáveis por nossas escolhas, sem medo de seguir em frente.
Dominick aprende muitas coisas com sua história familiar e embora a religião não tenha para ele o mesmo peso, que tinha para o irmão, ele acaba concluindo, que são as conexões que mostram a evidência de Deus em nossas vidas, mas que as nossas escolhas, somos nós que fazemos, apesar dos segredos do nosso sistema.
Eu te convido a refletir sobre isso. Os segredos de família, no final das contas, podem servir para olhar para nossos emaranhamentos como escolhas, para que possamos de fato encarar as nossas verdades, sejam elas boas ou ruins.
Outra questão que merece destaque é a imagem que veem das nossas famílias e a realidade como ela é. Aquele ditado se encaixa bem nestes casos, "Por fora bela viola, por dentro pão bolorento." E o que eu quero dizer com isso? Que de fato, não há família, nem sistema familiar perfeitos. Todos estamos sujeitos a defeitos, erros e acertos.
Diante de tudo que foi dito, você acredita que pode fazer suas escolhas?
E por fim, deixando como gancho para a próxima postagem, quero destacar que mesmo idênticos, Dominick e Thomas, não podem mais ser iguais após quarenta anos e vidas completamente diferentes. Isso fica claro no formato de seus corpos e na expressão de sua alma. É sobre isso que vamos falar na próxima postagem.
Podem gêmeos, "idênticos" ou bivitelinos, gerados e criados na mesma barriga e no mesmo sistema familiar, terem traços de caracteres diferentes? Qual fator é determinante para essa dinâmica? Como isso influencia em suas vidas?
Te espero no próximo post.
Um abraço,
Isabella Fernandino.

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