Consciência Sistêmica e Alzheimer - Filme The Father


Um dia, que seja bem distante, todo pai e toda mãe vão envelhecer. Algumas doenças podem surgir, dentre elas o mal de Alzheimer. Nesta ou em qualquer outra doença com os pais já idosos, é comum que os filhos vivam uma inversão hierárquica de papéis.

Mas, o que vem a ser isso e o que a consciência sistêmica ou constelação familiar tem a nos ensinar?

Quando ocorre em uma família essa inversão de papéis, o filho se torna parentalizado, ou seja, ele passa a cuidar do pai ou da mãe, assumindo o papel que seria próprio dos pais. Além disso, acaba sendo muito comum, que esses filhos assumam o papel de pai e mãe dos próprios irmãos.

Se o idoso que desenvolveu o mal de Alzheimer tiver ocupado ao longo da sua vida uma alta hierarquia na família, a desestruturação pela qual essa família passará é ainda mais grave.

Escolhi este tema para o artigo dessa semana aqui no Blog, após assistir ao filme The Father, que conta com as brilhantes atuações de Anthony Hopkins e Olivia Colman. 

Particularmente, o filme me proporcionou uma experiência pessoal bem aflitiva, ao acompanhar o mal de Alzheimer pela perspectiva do personagem principal. Além de me prender na trama, pude quase sentir o que passa, sente e pensa, uma pessoa nestas condições. Impossível não ter empatia pela situação do personagem. Senti a agonia dele por não compreender o que se passava e ao mesmo tempo o sofrimento da filha ao ver a situação e se sentir impotente diante dela. Sem contar o incomodo de ter que dar ordens e guiar o próprio pai já idoso e sem consciência do tempo e dos fatos. 

Acompanhando as cenas, percebemos ao final, que cada sutil transformação nas mesmas, faz toda diferença para a compreensão do que o diretor almeja com essa experiência. 

Cumplicidade e presença se contradizem ao sentimento de solidão do personagem. E em meio a tantas incertezas e dificuldades com a delicada situação, a filha vive momentos fortes de intenso reconhecimento e amor.

Embora no filme, a perspectiva seja inteiramente da pessoa afetada pela doença e isso faça toda diferença para a compreensão da história, não exclui-se a possibilidade de também analisarmos a perspectiva da filha, mas sobretudo da Constelação, considerando a necessidade da inversão de papéis.

Pela Constelação Familiar essa quebra hierárquica de papéis trás sofrimento não apenas para o(s) filho(s) desse idoso, mas para os filhos desses filhos(as). 

Especificamente, no caso de ter filhas de meia idade, que são chamadas de geração sanduíche, por se dividirem entre cuidar dos pais idosos e cuidar dos seus próprios filhos e ainda dar atenção a seu cônjuge, há exemplos fortes de conflitos.

Surgem conflitos de diversas ordens, muitos que já estavam latentes e vem à tona quando padrões, crenças, mitos, segredos, caem por terra diante de uma situação como essa. Isso trás muita angústia principalmente para o cuidador.

Quem cuida tem o legado de cuidar e quem não cuida, pode gerar o legado de não cuidar.

Há ainda o fato, de que a sociedade cobra muito esse cuidado. E isso levanta outras questões, como a monetização do cuidado, a conquista do cuidado, quem vai cuidar, quem não vai cuidar. Há famílias, em que esse cuidado nunca existiu, portanto, os filhos não estão preparados para fazê-lo. E embora a sociedade cobre isso, dependendo da situação, os filhos não se sentem nem no dever, nem na obrigação de fazê-lo.

Esses conflitos e a própria vivência do Alzheimer, variam conforme o contato e o afeto daquela família, as características de personalidade de cada paciente, a dinâmica da família, a história de vida dos membros.

Quando os filhos se tornam pais dos próprios pais, vem à tona muitos sentimentos de dívida. E aí, mora um grande perigo.

E nós devemos mesmo. A sensação é que nunca vamos equilibrar essa relação. Eles nos dão tudo, nos dão muito ao longo da vida: comida, casa, roupa, nos dão suas noites, seus dias, sua preocupação, seu sustento, conselhos, carências, violência, amor, mas sobretudo, eles nos deram a vida.

Muitos filhos(as), após se casarem e formarem suas famílias, continuam presos a seus pais e isso os enfraquece. O mesmo ocorre, nos casos de doenças, em que mesmo sendo necessária essa presença e esse papel dos filhos, há um enfraquecimento dos pais.

Mesmo na necessidade, os filhos acabam, mesmo que sem querer, exercendo uma certa prepotência sobre os pais, como se jogassem na cara deles, que eles podem, que eles conseguem, que eles sentem-se superiores aos pais.

Outros filhos, sentem esse momento como um peso: "Como eu posso seguir minha vida se preciso dar algo aos meus pais?". E assim, essas pessoas até crescem na vida, mas não conseguem usufruir das suas conquistas, pois sentem-se transgredindo uma regra.

Os pais por sua vez, desejam que esses filhos cresçam, sejam melhores que eles e usufruam o máximo da vida. Para um pai e uma mãe, não há nada mais realizador, que ver um filho brilhar na vida, pois é aí que esses filhos se tornam adultos saudáveis, é aí que os pais se fazem desnecessários para esses filhos.

Toda essa pressão de culpa e dívida, enfraquece pai e mãe, mas também a família desse filho(a), a relação de casal e a relação com os filhos.

A troca entre casal finda, e o filho volta-se aos pais, enfraquecendo a relação com a família que formou.

Olhar para os pais e dar-lhes o direito de serem fortes. Nós somos pequenos, eles são grandes. Nosso papel é participar da "Grande Família" e viver a família que construímos. A culpa nunca cabe. Por mais que façamos, jamais teremos como retribuir à altura aquilo que recebemos.

Amor e respeito é o melhor que podemos dar, além de sermos grata pela vida que recebemos.

Fica a minha dica de filme e esse pedido de reflexão.

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